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O Homem do Ano

A Mídia cínica ignora. Deve falar em coisas abstratas como “O Manifestante”. Certamente vai citar o paladino Joaquim Barbosa. Até mesmo Hernane Brocador pode entrar na parada. Mas não tem jeito: o Homem do Ano é Bruno Torturra.

Se tivesse uns 10% de vergonha na cara e elevasse Bruno a este patamar, a Mídia brazuca estaria apontando para si mesma. Apontando um dedo de reprovação, de acusação, de vergonha. Vai um clichê ? Macaco velho não põe a mão em cumbuca.

À parte o discurso messiânico de alguns ativistas, do fim do jornalismo e blá-blá-blá, é inegável que os Ninjas chacoalharam o depósito empoeirado de discursos e métodos da imprensa.

Em seu texto publicado na Piauí deste mês, Torturra faz um longo balanço do que foi esse furacão chamado 2013.

O que parece é que, mesmo quando atacado pela “Direita hidrófoba” (suas palavras), não se incomodava tanto com o conteúdo, inócuo na maioria das vezes. Ao contrário, as críticas atestavam o incômodo causado.

A avalanche de protestos e reivindicações de junho trazia também críticas abertas à Mídia convencional, com marchas que se estendiam até as sedes de jornais e emissoras de tevê. E não apenas à agenda editorial dos veículos e seu histórico de desserviços à democracia. Pediam mais. Pediam uma nova mídia.

Essa expectativa existia e a Mídia Ninja foi de encontro à ela. Na célebre entrevista no Roda Viva, imprensados (com trocadilho) por jornalistas profissionais, Bruno colocou a questão fundamental e que passou batida em meio à gritaria: o modelo comercial e ancorado em verbas publicitárias da Velha Mídia estava em queda.

A temporada de passaralhos iniciada em maio confirma isso. Todo e qualquer espaço físico que pudesse ser chamado de “redação” encolheu. Falo de demissões. Grandes, médios e pequenos veículos, todos foram contemplados.

Bruno lembra que, ao conversar com alguns colegas nessa mesma época, verificou um estranho comportamento. Os demitidos sentiam alívio. Os empregados, pavor. Mais carga de trabalho, mais responsabilidade, mais cobrança, mais pressão, mesmos salários.

A crise do jornalismo era, sobretudo, existencial. E a Mídia Ninja, longe de ser a salvação para o que quer que seja, era o novo. Bom, pelo menos naquele momento.

O crescimento muito rápido, o esgotamento, a transformação de veículo em estética, a apropriação (in)devida, tudo isso é passível de crítica. E de autocrítica, feita por Torturra. Até mesmo o  relacionamento com o Fora do Eixo e sua consequente separação.

Mas o cutucão na velha estrutura já valeu. A cobertura das ruas, direta, pulverizada, reveladora. Com defeitos, sim, mas honesta, apaixonada, viva. Tudo o que o jornalismo já foi um dia, e pode continuar a ser.

O futuro do jornalismo ?  Não, o passado, porque o jornalismo sempre foi assim, apenas com ferramentas diferentes. Se, parafraseando Boni, “não passou no Jornal Nacional, não aconteceu”, a Mídia Ninja já aconteceu, porque até lá suas imagens foram parar.

O Quarto Poder (que no Brasil, na verdade, é o primeiro) se olhou no espelho e não gostou do que viu. Olhou na janela e viu um bando de moleques fazendo seu trabalho. Foi pra rua e foi vaiado. Pegou o helicóptero e olhou de cima. Ficou feio.

Bruno não assume a liderança dos midianinjistas, mas ele, sim, os representa. Se deve ser criticado por erros cometidos, que seja assim. Mas, por justiça, deve também receber os cumprimentos pelos acertos.

Ouviu, Mídia Cínica ?

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