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Liberdade de Exceção

“E não creiais que Allah está desatento a tudo quanto cometem os injustos. Ele somente os tolera, até ao dia em que seus olhos ficarão atônitos;” 14ª Surata (Abraão), versículo 42.

“Em verdade, eles conspiram intensivamente (contra ti), e Eu conspiro intensivamente (contra eles). Tolera, pois, os incrédulos; tolera-os, por ora !” 86ª Surata (O Visitante Noturno), versículos 15-17.

Estas duas passagens do Alcorão Sagrado dão margem a várias interpretações. Inclusive se fizermos o exercício dos dois pontos de vista: Ocidental e Oriental. Tanto serve ao fanatismo muçulmano quanto ao fanatismo cristão.

Com a polêmica que foi gerada nos útlimos dias com o filme americano e a charge francesa, as trincheiras se armaram em tempo recorde. Matéria d’O Globo de sexta-feira (21/09) mostra a repercussão nos governos americanos, francês e alemão sobre a polêmica e suas medidas preventivas, sobretudo fechamento de embaixadas. Cita também a reação dos veículos de imprensa envolvidos na polêmica, o francês Charlie Hebdo e o alemão Titanic.

Além disso, O Globo coloca o seu mini-editorial Opinião no meio do texto, que diz (entre outras coisas):

“É tão obscurantista quanto o próprio sectarismo a ideia de que o governo dos Estados Unidos é  responsável por qualquer manifestação na sociedade americana sobre Maomé ou quem quer que seja. Ora, a liberdade de expressão é um direito sólido no país (…)”

Talvez o diário carioca se esqueça da seguinte equação: EUA + Oriente Médio + Petróleo = Guerra. Invadir o território muçulmano sistematicamente há décadas em busca de petróleo, usando a falácia da democracia delivery como muleta: eis o cardápio. E qual o canal escolhido ? Bingo, a mídia. O que dizer da promiscuidade entre Casa Branca e Fox News, CNN, CBS e que tais ? Liberdade de expressão a serviço de algo.

Na revista Carta Capital nº 715, de 19/09, o professor Vladimir Safatle reflete sobre a questão fanatismo islâmico x liberdade de expressão. Segue:

“(…) Há de se fazer um reflexão a respeito do flme que serviu de estopim para tais ações. Permitir um filme dessa natureza, onde seu realizador afirma querer mostrar como o islamismo é um câncer, nada tem a ver com liberdade de expressão. Pois nunca a liberdade de expressão significou poder falar qualquer coisa de qualquer forma. Em toda a situação democrática, há afirmações não permitidas. (…)”

Claro. É uma sensação óbvia que sentimos quando assistimos, por exemplo, cenas de grupos neo-nazistas marchando, empunhando bandeiras e fazendo discursos racistas. Sentimos revolta, até nojo. Para nós, eles sequer deveriam existir. Muito menos se manifestar. Nesse caso, a liberdade de expressão nunca é invocada. Lógico, afinal, eles são extremistas, não são ? Safatle continua a sua reflexão:

“(…) É claro que  temos o direito de criticar dogmas religiosos. Não se segue daí, porém, que se possa fazer isso de qualquer forma. (…) Saber encontrar a forma adequada de crítica é o mínimo que se pode esperar no século XXI.”

Safatle também argumenta que os grupos islâmicos responsáveis pelos atentados contra as embaixadas recebem suporte logístico e, mais do que isso, moral e teocrático de países como a Arábia Saudita, a mais poderosa e saguinária ditadura do Oriente Médio. Principal aliada comercial, econômica, financeira e política de, adivinhem quem ?  Um BigMac pra quem acertar.

Interpretar os fatos, como as duas frases lá de cima, sem preconceitos: mais uma missão diária da imprensa. Boa sorte. Pros fatos.

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Arquivado em Política Internacional