Desconstruindo Sharon

Ariel Sharon foi um monstro. Então ministro da Defesa israelense quando do Massacre de Sabra e Chatila, em setembro de 1982, quando mais de mil palestinos foram assassinados nos dois campos de refugiados. Contando com a disposição de milícias cristãs libanesas para fazer o trabalho sujo, foi no mínimo omisso. Um inquérito assim o considerou na época, e ele foi demitido do cargo.

Esse episódio é a maior vergonha da história de Israel, comparado por alguns analistas como similar, nos métodos, aos adotados pelos nazistas contra – que ironia – os próprios judeus.

Mas a vida de Sharon não se resumiu a isso, tampouco acabou por causa disso. Ex-general, foi ministro da Habitação, fundador de partido, primeiro-ministro, líder do Likud e uma das principais figuras políticas de Israel dos últimos 50 anos. Mas é inegável que o Massacre de Sabra e Chatila tem uma relevância, uma proeminência incomparável aos outros momentos.

Mais de mil mortos sob suas barbas. Por que não chamá-lo de genocida ?

Uma pergunta a ser feita ao Globo. O diário dos Marinho não deu um tostão de sua virulência ao analisar vida e obra do carniceiro. Virulência essa vista e revista em tantos outros casos. Na política nacional, por exemplo, e num espectro bem específico.

Pra continuar no assunto, usemos a famigerada Teoria do Domínio do Fato (utilizada somente quando convém). Sharon era ministro da Defesa, comandante civil do exército israelense que havia invadido o Líbano para desmantelar a OLP de Arafat. Era seu exército que fazia a “guarda” de Sabra e Chatila. Já à época, um dos mais bem equipados e preparados exércitos do mundo.

A culpa pelos massacres sempre recaiu nas milícias cristãs comandadas por Saad Hadad, ex-oficial expulso do exército libanês. Mas é inacreditável que Sharon não tivesse nada a ver com isso.

O texto de autoria de Renata Malkes e Daniela Kresch da edição de domingo (12/01) d’O Globo dá cabo de toda a vida de Sharon de maneira fria e protocolar. Não sonega nenhuma informação, contudo.

Mas a sensação que fica depois de lê-lo é de uma tentativa de desconstrução. Tenta dar um equilíbrio entre os atos de Sharon, colocando fatos como Sabra e Chatila e a remoção dos colonos judeus em Gaza no mesmo nível. Por óbvio, não está.

Infelizmente, essa foi uma tendência de parte de imprensa mundial. New York Times, Washington Post, Independent e até o amado (por aqui) El País montaram textos anódinos sobre Sharon.

Sendo assim, o título do texto marinhesco “A batalha perdida de Sharon” soa mais como uma lamentação contextualizada.

E o final, “(…) Sharon deixou a vida. E muitas dúvidas sobre sua verdadeira identidade”, parece mal-ajambrado, difícil de engolir. Porque Sharon sabia, sim, muito bem quem era. Aliás, todos nós sabíamos.

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