Eu alieno. Tu alienas. Eles editam.

Alexandre de Oliveira Kappaun é professor da Universidade Candido Mendes, no Rio de Janeiro, e escreveu uma coluna n’O Globo de hoje (23/11) com o curioso título de “Os alienados”. Kappaun faz alusão ao conto “O alienista”, de Machado de Assis, em que o personagem Simão Bacamarte, médico, prende todos os habitantes da cidade no manicômio, tachando-os de loucos. Com o passar do tempo, Bacamarte se dá conta de que é ele o verdadeiro louco e prende a si mesmo.

Alexandre faz uma analogia entre Bacamarte e os defensores do governo federal, e coloca a mídia brasileira em geral (palavras dele) como vítima. Segundo ele, “imprensa, no dicionário lulopetista, virou sinônimo de golpismo.” Para o professor, os escândalos noticiados pela Mídia não são fabricados por ela, mas resultado de investigação da Justiça.

Ele arremata, voltando à analogia, e pergunta: “Quando é que as pessoas que se colocam como ‘alienistas’ de plantão acordarão e se perceberão como alienados que são ?”

Ah, como são úteis as generalizações…

Atinge-se um grande grupo de pessoas, rotulando-as. Desqualifica-se esse grupo, simplificando suas atitudes e pensamentos, sem analisar contextos e desdobramentos.

Kappaun acerta quando diz que os escândalos de corrupção (especificamente o da Petrobras, mais factual) não foram obra da Grande Mídia, mas sim fatos concretos desvendados pelo bom trabalho do Ministério Público e da Polícia Federal.

Mas erra quando ignora que vazamentos vêm à tona em maior ou menor grau de acordo com interesses político-partidários e classistas. E tem maior ou menor destaque na Mídia pelos mesmos motivos.

Curiosamente (ou não) o tom da cobertura midiática sobre o propinoduto da Petrobrás baixou quando o próprio Ministério Público Federal afirmou que o esquema existia “há, pelo menos, 15 anos.” Significativo.

“Governistas”, termo criado para abarcar os chamados defensores do governo federal, são muitos e fazem parte de um grupo bem heterogêneo. Basta dizer que pertencem a ele, por exemplo, militantes do Psol e integrantes do PMDB. Ainda assim, é razoável pensar que quem apoia o governo Dilma e votou pela sua permanência está satisfeito com as revelações da Operação Lava-Jato ? Acho que não.

Kappaun incorre em outra generalização quando diz que “imprensa, no dicionário lulopetista, virou sinônimo de golpismo.” Qual imprensa ? Certamente aquilo que chamo de Grande Mídia, os grandes grupos. Mas imprensa, “o conjunto dos meios de divulgação de informação jornalística” (segundo o dicionário Houaiss), é mais do que isso. Em 2014, considerar como imprensa apenas os jornalões e as revistas semanais é, eufemisticamente falando, demonstração de defasagem.

Há muitos blogs e sites fazendo um bom trabalho jornalístico, alguns mais partidários, outros menos. Nada muito diferente do que faz a Grande Imprensa, mas com muito menos alcance e visibilidade.

Há um ressentimento petista com a Mídia, sem dúvida, e não precisa ser um sociólogo ou um psicanalista (ou os dois) para entender isso. O que, absolutamente, não absolve o PT de seus erros. Nem, tampouco, desvaloriza os acertos dos bons profissionais dessa mesma Mídia (sim, é óbvio que eles existem).

Quanto a golpismo, bem, uma leve procurada nos acervos históricos de cada um dos veículos de comunicação mais conhecidos será bem elucidativa. Ficará claro que a posição de cada um deles em relação a governos mais populares e progressistas, ao longo da história, sempre foi e permanece a mesma.

Tratar os críticos da Mídia como alienados (agora sem aspas) é desqualificar um bocado de gente. Pessoas que estudam e acompanham a trajetória da imprensa brasileira e suas contradições. Muitos acadêmicos, inclusive. Colegas de Kappaun, portanto.

Se quem critica a Mídia é alienado, quem acredita piamente nela seria o que ? Perguntar não ofende.

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Davi e Golias in reverse

Incursão, ofensiva, operação, expansão significativa. Esses são alguns termos utilizados pela repórter Daniela Kresch em sua matéria nesse sábado (19/07) n’O Globo. O assunto: o massacre em Gaza. Adotando o ponto de vista de Israel, informações presentes no texto como a morte de 35 palestinos contra 1 israelense são minimizadas.

Nenhuma surpresa. O Globo, a exemplo de seus concorrentes brasileiros, segue a linha editorial de boa parte da Grande Mídia internacional.

Mas o foco do texto é o ataque, por parte de Israel, à infraestrutura do Hamas. Túneis construídos pelo grupo islâmico para, segundo o diário carioca, “contrabandear produtos – incluindo armas.” Chamados por Netanyahu de “Túneis do Terror.” O jornal lembra ainda que, antes da descoberta dos túneis, era o “arsenal aéreo” do Hamas que levava milhões de israelenses a se proteger em bunkers.

De uma forma enviesada, O Globo acaba igualando o poderio bélico do Hamas com o Estado de Israel. “Milhões de israelenses a se proteger em bunkers.” Sério ? Não se subestima o alcance dos mísseis, mas “milhões” ? A capacidade de defesa de Israel é diminuída também. E mais uma informação é minimizada: no corpo do texto, revela que 340 projéteis de diversas facções islâmicas foram abatidos pelo Domo de Ferro, o sofisticado escudo anti-mísseis israelense. Contradição, portanto.

Mais à frente no texto, a repórter, em referência à funcionalidade dos túneis, relata que, na quinta-feira (17/07), “13 militantes do Hamas, armados até os dentes, surpreenderam Israel ao surgirem, do nada, a poucos metros de distância do Kibutz Sufa, na fronteira com o Sul de Gaza.”

Armados até os dentes. Bem, parece que aqui a adjetivação está liberada.

Treze militantes armados até os dentes surpreenderam o mais tecnológico dos exércitos no mundo. Não, não convence.

Mais à frente, ainda sobre os túneis, “trata-se de uma sofisticada rede com número incerto de ramificações, que os militares israelenses chamam de cidade subterrânea.” Adiante no texto, Kobi Michael, especialista militar consultado, opina: “Para o Hamas, são uma arma estratégica, principalmente após perceberem que o impacto real dos foguetes contra Israel é menos dramático do que se esperava.”

Menos dramático ? E os supracitados “milhões” de israelenses que se protegem em bunkers ? Contradições, contradições…

Tentar comparar o Hamas com o IDF (Israel Defense Forces) chega a ser ridículo. Por isso, figuras de linguagem tão caras à língua portuguesa como eufemismos, hipérboles e metáforas vêm bem a calhar.

E assim, Davis viram Golias e vice-versa.

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Os frangos assados de Fiuza

O rolezinho, esse incompreendido. O “fenômeno articulado pelas redes sociais” (clichezaço 1) sofre de tudo aquilo que vem do andar do baixo: o olhar distante e pasmo do andar de cima.

Na edição d’O Globo de sábado (18/01), Guilherme Fiuza, centroavante rompedor do diário marinhesco fez sua análise do “fato marcante da semana” (clichezaço 2). E por que não haveria de  fazê-lo ?  Afinal ele está lá pra isso, dar sua opinião, sua visão, analisar os acontecimentos pela sua ótica, com total independência e isenção. O fato de jamais ter discordado da linha editorial do jornal é um mero detalhe.

E atento aos detalhes como é, Fiuza deve ter notado que na mesma edição do diário há uma matéria na página 5 que dá conta de uma liminar expedida por uma juíza que proíbe o rolezinho no Shopping Leblon. E bem no meio da matéria, ele, o querido e amado box Opinião do Globo, que aponta para oportunistas se aproveitando do “factoide”. E lá vai a galeria: Gilberto Carvalho, MTST, cientistas políticos e … pensadores de generalidades de plantão.

Não é o caso dele. Fiuza é um analista, e prova isso em seu texto, onde começa fazendo prognósticos eleitorais (ele é  bom nisso).

Eleições. Os jornais só pensam nisso, e todo e qualquer fato pode e deve ser direcionado para a urna.  Parece até que eles são atores políticos interessados diretamente no assunto. Estranho…

Mas Fiuza vai adiante e tenta em seu texto denunciar uma apropriação dos rolezinhos por parte do (adivinha quem ?) PT. O partido estaria utilizando o evento para turbinar sua retórica esquerdista com fins eleitorais (?!). Calibrando seu arsenal demagógico para redirecioná-lo à burguesia excludente e apontar-lhe o dedo incriminador pelo seu histórico descaso social com as camadas mais pobres. (ufa, isso cansa…)

Ou seja, plantando em janeiro para colher em outubro. De novo, as Eleições.

Assim como as Eleições são para a Grande Mídia, é o PT para Fiuza (e, por extensão, para seus colegas de camisa-de-força. Desnecessário nomeá-los.)

Se toda essa retórica marxista-leninista-maoísta-castrista-petista-e-etc conseguiu, por si só, se manter no poder por 16 anos, não resta dúvida: o PT deve contar com os maiores estrategistas políticos da história da humanidade. Maquiavel aplaudiria de pé, Hobbes se emocionaria e Locke pediria autógrafos.

Não passa pela cabeça privilegiada de Fiuza que o governo possa ter feito algo de bom pela população ?  Um governo se mantém, num regime democrático, por 16 anos no poder apenas com retóricas, blá-blá-blás e conversa mole ?

A despeito dos erros cometidos em todos esses anos (e não foram poucos), a população vê, sim, os governos de Lula e Dilma como modificadores de suas vidas, ainda que num contexto imediatista.

Fiuza prossegue denunciando “o pensamento solidário dos hipócritas”. Diz que “o PT acha certo – e boa parte da burguesia culpada e pusilânime – que uma multidão de garotos (…) tem o direito de privar os indivíduos que não estão em bando do lazer ou dos serviços de um shopping.”

Acha que acabou ? Então segura essa: “Assim é a infernal bondade aritmética da esquerda: se um ajuntamento de cabeças, ocas ou não, resolve ocupar um espaço público e atropelar sua finalidade, tudo bem.”

Antes disso, Fiuza tinha listado, entre as possibilidades de um shopping center, “consumir cultura.”

Por partes, como diria Serra.

Qual a diferença entre a multidão de garotos e o indivíduo que não está em bando ? O bando, apenas. De resto, tanto  os garotos quanto o indivíduo foram ao shopping fazer as mesmas coisas: passear, lanchar, namorar e até comprar.

Há outras diferenças entre os garotos e o indivíduo, sim, mas se eu disser que os garotos são negros e pobres e o indivíduo branco e rico pode soar como retórica esquerdista e Fiuza, claro, detectaria. Deixa quieto.

Quanto à ocupar um espaço público, acho que Fiuza se engana. Shopping não é espaço público, a menos que essa retórica (direitista ?) convenha. É público pros “bons” frequentadores e privado pros “maus” ?  Ou o contrário ?  Ou talvez seja público pra justificar a presença da PM ?  Se for público, é franqueado a toda a população, correto ?  Não sabia que o termo público fosse assim tão … flexível.

E, por fim, shopping center (pra quem não sabe, é um termo em inglês) quer dizer centro de compras. Não dá pra consumir cultura lá, e não adianta vir com o papo de que há cinemas em muitos deles. Há salas de projeção. Cinema é outra coisa.

Fiuza se parece com aqueles personagens dos desenhos da Warner Brothers: quando estão com fome, vêem frangos assados em toda parte.

Os frangos assados de Fiuza são duas letras: PT.

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Desconstruindo Sharon

Ariel Sharon foi um monstro. Então ministro da Defesa israelense quando do Massacre de Sabra e Chatila, em setembro de 1982, quando mais de mil palestinos foram assassinados nos dois campos de refugiados. Contando com a disposição de milícias cristãs libanesas para fazer o trabalho sujo, foi no mínimo omisso. Um inquérito assim o considerou na época, e ele foi demitido do cargo.

Esse episódio é a maior vergonha da história de Israel, comparado por alguns analistas como similar, nos métodos, aos adotados pelos nazistas contra – que ironia – os próprios judeus.

Mas a vida de Sharon não se resumiu a isso, tampouco acabou por causa disso. Ex-general, foi ministro da Habitação, fundador de partido, primeiro-ministro, líder do Likud e uma das principais figuras políticas de Israel dos últimos 50 anos. Mas é inegável que o Massacre de Sabra e Chatila tem uma relevância, uma proeminência incomparável aos outros momentos.

Mais de mil mortos sob suas barbas. Por que não chamá-lo de genocida ?

Uma pergunta a ser feita ao Globo. O diário dos Marinho não deu um tostão de sua virulência ao analisar vida e obra do carniceiro. Virulência essa vista e revista em tantos outros casos. Na política nacional, por exemplo, e num espectro bem específico.

Pra continuar no assunto, usemos a famigerada Teoria do Domínio do Fato (utilizada somente quando convém). Sharon era ministro da Defesa, comandante civil do exército israelense que havia invadido o Líbano para desmantelar a OLP de Arafat. Era seu exército que fazia a “guarda” de Sabra e Chatila. Já à época, um dos mais bem equipados e preparados exércitos do mundo.

A culpa pelos massacres sempre recaiu nas milícias cristãs comandadas por Saad Hadad, ex-oficial expulso do exército libanês. Mas é inacreditável que Sharon não tivesse nada a ver com isso.

O texto de autoria de Renata Malkes e Daniela Kresch da edição de domingo (12/01) d’O Globo dá cabo de toda a vida de Sharon de maneira fria e protocolar. Não sonega nenhuma informação, contudo.

Mas a sensação que fica depois de lê-lo é de uma tentativa de desconstrução. Tenta dar um equilíbrio entre os atos de Sharon, colocando fatos como Sabra e Chatila e a remoção dos colonos judeus em Gaza no mesmo nível. Por óbvio, não está.

Infelizmente, essa foi uma tendência de parte de imprensa mundial. New York Times, Washington Post, Independent e até o amado (por aqui) El País montaram textos anódinos sobre Sharon.

Sendo assim, o título do texto marinhesco “A batalha perdida de Sharon” soa mais como uma lamentação contextualizada.

E o final, “(…) Sharon deixou a vida. E muitas dúvidas sobre sua verdadeira identidade”, parece mal-ajambrado, difícil de engolir. Porque Sharon sabia, sim, muito bem quem era. Aliás, todos nós sabíamos.

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O Homem do Ano

A Mídia cínica ignora. Deve falar em coisas abstratas como “O Manifestante”. Certamente vai citar o paladino Joaquim Barbosa. Até mesmo Hernane Brocador pode entrar na parada. Mas não tem jeito: o Homem do Ano é Bruno Torturra.

Se tivesse uns 10% de vergonha na cara e elevasse Bruno a este patamar, a Mídia brazuca estaria apontando para si mesma. Apontando um dedo de reprovação, de acusação, de vergonha. Vai um clichê ? Macaco velho não põe a mão em cumbuca.

À parte o discurso messiânico de alguns ativistas, do fim do jornalismo e blá-blá-blá, é inegável que os Ninjas chacoalharam o depósito empoeirado de discursos e métodos da imprensa.

Em seu texto publicado na Piauí deste mês, Torturra faz um longo balanço do que foi esse furacão chamado 2013.

O que parece é que, mesmo quando atacado pela “Direita hidrófoba” (suas palavras), não se incomodava tanto com o conteúdo, inócuo na maioria das vezes. Ao contrário, as críticas atestavam o incômodo causado.

A avalanche de protestos e reivindicações de junho trazia também críticas abertas à Mídia convencional, com marchas que se estendiam até as sedes de jornais e emissoras de tevê. E não apenas à agenda editorial dos veículos e seu histórico de desserviços à democracia. Pediam mais. Pediam uma nova mídia.

Essa expectativa existia e a Mídia Ninja foi de encontro à ela. Na célebre entrevista no Roda Viva, imprensados (com trocadilho) por jornalistas profissionais, Bruno colocou a questão fundamental e que passou batida em meio à gritaria: o modelo comercial e ancorado em verbas publicitárias da Velha Mídia estava em queda.

A temporada de passaralhos iniciada em maio confirma isso. Todo e qualquer espaço físico que pudesse ser chamado de “redação” encolheu. Falo de demissões. Grandes, médios e pequenos veículos, todos foram contemplados.

Bruno lembra que, ao conversar com alguns colegas nessa mesma época, verificou um estranho comportamento. Os demitidos sentiam alívio. Os empregados, pavor. Mais carga de trabalho, mais responsabilidade, mais cobrança, mais pressão, mesmos salários.

A crise do jornalismo era, sobretudo, existencial. E a Mídia Ninja, longe de ser a salvação para o que quer que seja, era o novo. Bom, pelo menos naquele momento.

O crescimento muito rápido, o esgotamento, a transformação de veículo em estética, a apropriação (in)devida, tudo isso é passível de crítica. E de autocrítica, feita por Torturra. Até mesmo o  relacionamento com o Fora do Eixo e sua consequente separação.

Mas o cutucão na velha estrutura já valeu. A cobertura das ruas, direta, pulverizada, reveladora. Com defeitos, sim, mas honesta, apaixonada, viva. Tudo o que o jornalismo já foi um dia, e pode continuar a ser.

O futuro do jornalismo ?  Não, o passado, porque o jornalismo sempre foi assim, apenas com ferramentas diferentes. Se, parafraseando Boni, “não passou no Jornal Nacional, não aconteceu”, a Mídia Ninja já aconteceu, porque até lá suas imagens foram parar.

O Quarto Poder (que no Brasil, na verdade, é o primeiro) se olhou no espelho e não gostou do que viu. Olhou na janela e viu um bando de moleques fazendo seu trabalho. Foi pra rua e foi vaiado. Pegou o helicóptero e olhou de cima. Ficou feio.

Bruno não assume a liderança dos midianinjistas, mas ele, sim, os representa. Se deve ser criticado por erros cometidos, que seja assim. Mas, por justiça, deve também receber os cumprimentos pelos acertos.

Ouviu, Mídia Cínica ?

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A Direita na mira de Prata e Miriam. Hã ?!

Por partes, com o diria Jack. Primeiro Prata. Em sua irônica coluna de domingo (03/11), na Folha, Antonio Prata atacou a Direita que não diz seu nome com suas próprias armas. Suas, dela.

A farta distribuição de clichês reacionários que criticavam o Brasil de hoje atingiu em cheio seus alvos, só que com um efeito bumerangue. Lamentavelmente para o autor, os atingidos não acusaram o golpe. Aliás, muito pelo contrário.

No dia seguinte, na seção de cartas do diário dos Frias, recebeu os parabéns pela “coragem” de dizer as “verdades” que, na prática, não disse. A insólita solidariedade conservadora transformou a situação numa dupla-ironia, em que as críticas feitas pelo personagem criado por Prata foram reforçadas ao invés de rechaçadas. Elas ganharam vida.

Mais do que isso, ganharam rosto, cor, endereço, faixa salarial, escolaridade e classe social. Uma carapuça múltipla que serviu a contento a uma fatia considerável de leitores do jornal. E estes disseram, em uníssono, um sonoro presente.

Foi tão nonsense que Prata escreveu na mesma segunda (04/11) e na mesma seção o seguinte: “A intenção, ao criar tal persona retrógrada, racista, machista e homofóbica, era apontar tais preconceitos em nossa sociedade. Parece que funcionou (…)”. Fato.

Já Miriam Leitão não criou personagem nenhum. Foi direta. Em sua coluna n’O Globo de domingo (03/11),  preferiu falar do maniqueísmo emburrecedor no debate político brasileiro e fez críticas aos dois lados. Acertou e errou.

Para destacar o exagero cometido por conservadores e progressistas, comentou aspectos positivos e negativos tanto do PT quanto do PSDB. Seletivamente, óbvio. Mas num tom equilibrado, que é sua característica.

Falou implicitamente dos blogueiros, na “suposta esquerda, muito bem patrocinada pelos anúncios de estatais.” Verdade. Como alguns dos veículos em que trabalha, aliás. Mas isso não falou.

Falou também na “direita hidrófoba que ganha cada vez mais espaço nos grandes jornais.” Verdade também, mas não os criticou por isso.

Relembrou também uma crítica recebida de um colunista recém-contratado pela Folha (desnecessário nomeá-lo) e concordou com o termo “rotweiller” cunhado pela ombudsman do jornal e atribuído a ele por ser grosseiro.

Crítica à Folha pelo espaço dado ao “rotweiller”: nenhum registro.

Prata e Miriam, cada um a seu modo, atacaram a Direita, com “d” maiúsculo. Só que Prata, com sua ironia, foi mais direto. Seu erro (se é que houve) foi apostar na inteligência “dessa” Direita. Talvez não esperasse a personificação dos preconceitos como resposta e em forma de congratulações.

Miriam, ao tentar ser direta, foi melíflua. Ao atacar os articulistas raivosos e espumantes livrou a cara dos empregadores, ambos integrantes do mesmo clube: a Direita brasileira.

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Troca de posição na oposição

“Marina se une a Campos e muda cenário para 2014.” (O Globo)

“Marina se une a Campos para 2014.” (Folha de S. Paulo)

“Marina se filia ao PSB e anuncia apoio à candidatura de Campos.” (O Estado de S. Paulo)

Essas foram as manchetes de domingo (06/10) dos Três Grandes. É a modalidade olímpica Manchete Sincronizada. Mas o que chama a atenção é o pudor, o recato. Onde está a grandiloquência, o espalhafato, o sensacionalismo de nossa equilibrada Mídia ?

No discurso de Marina.

“Projeto por um Brasil que queremos”. “Sepultar de vez a Velha República.” “Acabar com a hegemonia e o Chavismo do PT no governo.” Onde já foram lidas/ditas/ouvidas frases como essas ? Onde cairiam bem ?

A Grande Mídia brazuca teve poupado seu trabalho de oposição nesse último fim de semana. E seus think-tanks certamente já projetam o próximo ano. Se a dupla Marina-Campos se unir a Aécio terão um amplo arsenal de aspas, declarações, perguntas-retóricas, conversas colunistas-“fontes” e tudo o que conhecemos.

A novidade é que nas Eleições-2014 (olha a editoria aí) a Mídia pode, pela primeira vez em anos, deixar o protagonismo para os candidatos. Com uma oposição de direito mais robusta, a oposição de fato dos últimos tempos tende a se recolher e fazer o seu papel de, digamos, imprensa.

Claro que uma forçadinha de mão nos momentos decisivos não pode ser descartada. O know-how é inquestionável.

O que ainda está em aberto nesse cenário eleição/mídia é o posicionamento de Serra. Escanteado no PSDB, o candidato-eterno trabalhará pró-Aécio ? Se a resposta for não, como trabalhará então ? Ou não trabalhará ?

Difícil imaginar que Serra ficará completamente alijado da disputa. Não são necessários grampos da NSA para saber que ele nunca morreu de amores por Aécio. A questão é se ele o boicotará e por quais meios.

Sim, senhores, está aberta a temporada da contra-informação. Ou, pelo menos, aberta a possibilidade. Como diria o Homem do Baú, aguardem.

Especulo ainda mais.

Com as Eleições-2014 assumidas integralmente pelos candidatos, poderemos ver pela primeira vez (dessa vez, na História) os grandes órgãos da imprensa assumirem seus candidatos. Em editoriais. Oficialmente, portanto.

O Estadão já o fez em 2010, assim como Carta Capital faz desde sua fundação. Mas não a coloco no bloco da Grande Mídia. Nem em tamanho, nem em alinhamento editorial. E isso é um elogio.

Essa prática, comum em veículos dos Estados Unidos e Europa, se adotada em conjunto pela Grande Mídia, seria inédita por aqui. E seria mais uma medida de transparência, somando-se  à disponibilização digital do acervo dos grandes jornais. Muito pouco ainda, mas significativo.

Seria também, lógico, um reposicionamento de marca, um aceno para o mercado. Uma espécie de “Ei, vejam, somos plurais, honestos e transparentes, que tal investir aqui ?”

Ingenuidade e Grande Mídia, afinal, não combinam.

 

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